9° Relatório - Aspectos Ideológicos do Discurso
Para
a aula do dia 11 de maio, o professor Leandro pediu que adiantássemos a leitura
do 3º capítulo do artigo "Análise do Discurso: Fundamentos &
Práticas", dos autores Ana Maria Gama Florêncio, Belmira Magalhães, Helson Flávio
da Silva Sobrinho e Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante.
O
capítulo em questão apresentava a concepção do discurso como práxis (conceito
marxista que diz respeito às práticas/ações humanas que transformam o mundo e as
relações sociais), e como ideológico – uma vez que o
sujeito que o produz precisa partir de um lugar na sociedade.
Para
explicar melhor tal concepção, o professor realizou a leitura de trechos do
capítulo 1, no qual os autores elaboraram uma reflexão histórica acerca do
final dos anos 60. Nessa época, após diversos conflitos geopolíticos,
estudiosos passaram a contestar o estruturalismo saussuriano e a considerar a
dualidade constitutiva da linguística, que, apesar de formal, abrange também
contextos sociais, históricos e, portanto, ideológicos. Dessa forma, a
materialidade da língua está incorporada à materialidade da história e das
relações sociais de modo indissociável, o que gera o discurso. Este, por sua
vez, não existe sem ideologia: está intimamente atrelado às marcas de sua
sociedade e época.
Ao
retomar a leitura do capítulo 3, descobrimos que existe uma categoria na
Análise do Discurso, chamada Condições de Produção, que estuda as
relações do sujeito em sua participação social. Essa categoria pode ser
entendida em dois sentidos:
·
Amplo: expõe as
relações de produção pertencentes a uma sociedade num dado momento histórico,
social e ideológico;
·
Restrito: abrange
as condições imediatas que concebem o discurso (o indivíduo que está falando e
como ele fala).
Vimos
também que a ideologia constrói a individualidade do sujeito. De acordo com o
artigo, "Ele (o sujeito) busca respostas, a partir de seu lugar social,
assumindo posições ideológicas que, em suas práticas sociais de relações de
classe, produzem sentidos". Dessa forma, a ideologia constitui o sujeito e
seus sentidos (ideias que o sujeito absorve sem perceber), caracterizando
então, um indivíduo social. Assim, forma-se uma relação de
interdependência: o discurso não existe sem um sujeito e este sujeito não
existe sem ideologia.
Existem
também, expressos no decorrer do artigo, alguns conceitos formalizados em
relação ao texto:
§
O primeiro deles é o conceito
do não-dito: aquilo que não está descrito explicitamente no texto,
mas que fica subentendido durante sua leitura.
§ O
segundo é o conceito do dito ou já-dito:
aquilo que está em evidência no texto. Esse conceito subdivide-se em:
>
Interdiscurso: são as relações estabelecidas
entre discursos diferentes, que formam um entrelaçamento de vários discursos.
Um exemplo citado pelo professor foi o do discurso da tradição familiar, que
parte de um discurso da igreja, que deriva de uma tradição histórica, e assim
sucessivamente.
>
Intradiscurso: são as relações que se dão
entre diferentes partes do mesmo discurso. Este conceito assume que os discursos são produzidos
em determinadas condições, lugares, momentos e com propósitos específicos.
OBS: essas
duas subcategorias dependem uma da outra, já que o intradiscurso é permeado
pelo interdiscurso e vice-versa.
§
O terceiro conceito é o da memória
discursiva: aqui, há um retorno a outros discursos para fins de
ressignificação. Entretanto, a memória é passível de esquecimento, seja por
falhas ou por apagamento do que não pode/deve ser dito. Esses esquecimentos são
separados em:
>
Esquecimento nº 1: o
sujeito cria uma ilusão necessária de que o discurso que ele está produzindo é
original; não sendo capaz de perceber que, na verdade, tudo que ele produz está
vinculado a características de outros discursos já-ditos. O professor nos deu o
exemplo de uma ilusão oposta a essa: quando alguém aponta que o discurso
de outra pessoa é ideológico, esse alguém cria uma ilusão de superioridade para
si, e torna-se incapaz de identificar em si mesmo o que ele denuncia no outro:
a presença do já-dito. Dessa forma, cria-se uma assimetria prejudicial
para a linguagem.
> Esquecimento
nº 2: provoca no
sujeito a ilusão de que ele está no controle absoluto da formulação de seu
discurso, quando, na verdade, este controle é apenas parcial. O sujeito não
percebe que utiliza mecanismos estruturais da linguagem (como as estruturas
sintáticas, por exemplo), já apreendidos anteriormente.
Resumidamente,
de acordo com o professor, o
esquecimento nº 1 diz respeito à incapacidade do sujeito de controlar o conteúdo do
que está dizendo; enquanto o esquecimento nº 2 refere-se à falta de controle
da maneira como o sujeito fala.
OBS: se a linguagem possui mais de um sentido, e o
sujeito não é capaz de controlar todos, isso significa que o próprio sujeito,
assim como a própria linguagem, é instável e incompleto.
§ Como
quarto conceito, estudamos o silêncio do não-dito ou silenciamento:
são as palavras, frases, expressões, etc. que
deixam de ser ditas para que o sentido daquilo que efetivamente é falado seja
formado. Por exemplo, quando falamos "a" estamos deixando de falar
"b, c, d..."
para que o sentido do "a" dito não seja prejudicado. Esse silêncio,
porém, não depende apenas de uma escolha lexical feita pelo sujeito; depende
também da interdição/organização social e da ideologia discursiva pertencentes
ao momento em que se fala. O professor contextualizou esse conceito nos
dando o exemplo de uma situação formal, onde o sujeito falante não é próximo
das pessoas as quais ele deve discursar. O sujeito então escolhe as palavras
que vai utilizar (porém, essas escolhas lhe foram impostas pela organização da
sociedade em que ele vive), para que assim, seu discurso possa ser apreendido
pelas outras pessoas sem a necessidade de proximidade.
Por
fim, estudamos as duas etapas necessárias para a análise discursiva do ponto de
vista metodológico:
1.
Objeto discursivo a ser analisado: parte
do princípio de que todo discurso é resultado de uma intervenção do sujeito
sobre um aspecto da realidade, ou seja, prioriza o estudo da pragmática.
2.
Funcionamento da língua para as práxis
discursivas: é o caso da metáfora e metonímia,
que possibilitam ao sujeito a criação de um jogo discursivo, no qual ele tem a
ilusão de não revelar suas verdadeiras intenções.
Ambas
as etapas nos levam ao desvelamento discursivo, que, para ser
realizado, depende de três conceitos essenciais já mencionados neste
relatório: o dito (conteúdo evidenciado no texto), o não-dito (conteúdo
subentendido no texto, só acontece a partir do dito) e o silêncio (aquilo
que provém do não-dito para que o dito aconteça).
O professor finalizou a aula resumindo sobre o já-dito, intradiscurso, interdiscurso, os esquecimentos, não-dito e o silenciado, e ressaltou que a próxima semana ele vai revisar os conteúdos passados para a prova.
O professor finalizou a aula resumindo sobre o já-dito, intradiscurso, interdiscurso, os esquecimentos, não-dito e o silenciado, e ressaltou que a próxima semana ele vai revisar os conteúdos passados para a prova.