terça-feira, 12 de maio de 2020


Para a aula do dia 11 de maio, o professor Leandro pediu que adiantássemos a leitura do 3º capítulo do artigo "Análise do Discurso: Fundamentos & Práticas", dos autores Ana Maria Gama Florêncio, Belmira Magalhães, Helson Flávio da Silva Sobrinho e Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante. 

O capítulo em questão apresentava a concepção do discurso como práxis (conceito marxista que diz respeito às práticas/ações humanas que transformam o mundo e as relações sociais), e como ideológico –  uma vez que o sujeito que o produz precisa partir de um lugar na sociedade. 

Para explicar melhor tal concepção, o professor realizou a leitura de trechos do capítulo 1, no qual os autores elaboraram uma reflexão histórica acerca do final dos anos 60. Nessa época, após diversos conflitos geopolíticos, estudiosos passaram a contestar o estruturalismo saussuriano e a considerar a dualidade constitutiva da linguística, que, apesar de formal, abrange também contextos sociais, históricos e, portanto, ideológicos. Dessa forma, a materialidade da língua está incorporada à materialidade da história e das relações sociais de modo indissociável, o que gera o discurso. Este, por sua vez, não existe sem ideologia: está intimamente atrelado às marcas de sua sociedade e época. 

Ao retomar a leitura do capítulo 3, descobrimos que existe uma categoria na Análise do Discurso, chamada Condições de Produção, que estuda as relações do sujeito em sua participação social. Essa categoria pode ser entendida em dois sentidos: 
·         Amplo: expõe as relações de produção pertencentes a uma sociedade num dado momento histórico, social e ideológico; 
·         Restrito: abrange as condições imediatas que concebem o discurso (o indivíduo que está falando e como ele fala). 

Vimos também que a ideologia constrói a individualidade do sujeito. De acordo com o artigo, "Ele (o sujeito) busca respostas, a partir de seu lugar social, assumindo posições ideológicas que, em suas práticas sociais de relações de classe, produzem sentidos". Dessa forma, a ideologia constitui o sujeito e seus sentidos (ideias que o sujeito absorve sem perceber), caracterizando então, um indivíduo social. Assim, forma-se uma relação de interdependência: o discurso não existe sem um sujeito e este sujeito não existe sem ideologia. 

Existem também, expressos no decorrer do artigo, alguns conceitos formalizados em relação ao texto: 

§  O primeiro deles é o conceito do não-dito: aquilo que não está descrito explicitamente no texto, mas que fica subentendido durante sua leitura. 

§  O segundo é o conceito do dito ou já-dito: aquilo que está em evidência no texto. Esse conceito subdivide-se em: 
> Interdiscurso: são as relações estabelecidas entre discursos diferentes, que formam um entrelaçamento de vários discursos. Um exemplo citado pelo professor foi o do discurso da tradição familiar, que parte de um discurso da igreja, que deriva de uma tradição histórica, e assim sucessivamente. 
> Intradiscurso: são as relações que se dão entre diferentes partes do mesmo discurso. Este conceito assume que os discursos são produzidos em determinadas condições, lugares, momentos e com propósitos específicos. 
OBS: essas duas subcategorias dependem uma da outra, já que o intradiscurso é permeado pelo interdiscurso e vice-versa.  

§  O terceiro conceito é o da memória discursiva: aqui, há um retorno a outros discursos para fins de ressignificação. Entretanto, a memória é passível de esquecimento, seja por falhas ou por apagamento do que não pode/deve ser dito. Esses esquecimentos são separados em: 
 > Esquecimento nº 1: o sujeito cria uma ilusão necessária de que o discurso que ele está produzindo é original; não sendo capaz de perceber que, na verdade, tudo que ele produz está vinculado a características de outros discursos já-ditos. O professor nos deu o exemplo de uma ilusão oposta a essa: quando alguém aponta que o discurso de outra pessoa é ideológico, esse alguém cria uma ilusão de superioridade para si, e torna-se incapaz de identificar em si mesmo o que ele denuncia no outro: a presença do já-dito. Dessa forma, cria-se uma assimetria prejudicial para a linguagem. 
> Esquecimento nº 2: provoca no sujeito a ilusão de que ele está no controle absoluto da formulação de seu discurso, quando, na verdade, este controle é apenas parcial. O sujeito não percebe que utiliza mecanismos estruturais da linguagem (como as estruturas sintáticas, por exemplo), já apreendidos anteriormente.  
Resumidamente, de acordo com o professor, o esquecimento nº 1 diz respeito à incapacidade do sujeito de controlar o conteúdo do que está dizendo; enquanto o esquecimento nº 2 refere-se à falta de controle da maneira como o sujeito fala.  
OBS: se a linguagem possui mais de um sentido, e o sujeito não é capaz de controlar todos, isso significa que o próprio sujeito, assim como a própria linguagem, é instável e incompleto. 

§  Como quarto conceito, estudamos o silêncio do não-dito ou silenciamento: são as palavras, frases, expressões, etc. que deixam de ser ditas para que o sentido daquilo que efetivamente é falado seja formado. Por exemplo, quando falamos "a" estamos deixando de falar "b, c, d..." para que o sentido do "a" dito não seja prejudicado. Esse silêncio, porém, não depende apenas de uma escolha lexical feita pelo sujeito; depende também da interdição/organização social e da ideologia discursiva pertencentes ao momento em que se fala. O professor contextualizou esse conceito nos dando o exemplo de uma situação formal, onde o sujeito falante não é próximo das pessoas as quais ele deve discursar. O sujeito então escolhe as palavras que vai utilizar (porém, essas escolhas lhe foram impostas pela organização da sociedade em que ele vive), para que assim, seu discurso possa ser apreendido pelas outras pessoas sem a necessidade de proximidade. 

Por fim, estudamos as duas etapas necessárias para a análise discursiva do ponto de vista metodológico: 
1.    Objeto discursivo a ser analisado: parte do princípio de que todo discurso é resultado de uma intervenção do sujeito sobre um aspecto da realidade, ou seja, prioriza o estudo da pragmática. 
2.    Funcionamento da língua para as práxis discursivas: é o caso da metáfora e metonímia, que possibilitam ao sujeito a criação de um jogo discursivo, no qual ele tem a ilusão de não revelar suas verdadeiras intenções. 

Ambas as etapas nos levam ao desvelamento discursivo, que, para ser realizado, depende de três conceitos essenciais já mencionados neste relatório: o dito (conteúdo evidenciado no texto), o não-dito (conteúdo subentendido no texto, só acontece a partir do dito) e o silêncio (aquilo que provém do não-dito para que o dito aconteça). 

O professor finalizou a aula resumindo sobre o já-dito, intradiscurso, interdiscurso, os esquecimentos, não-dito e o silenciado, e ressaltou que a próxima semana ele vai revisar os conteúdos passados para a prova.

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